Brasil, 01 de fevereiro de 2026
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Filho de doméstica e pedreiro passa em 1º lugar em Medicina na USP

Wesley mora em um conjunto habitacional na periferia de Salvador (BA) e utilizou apostilas usadas que recebeu por doação, além de conteúdos online, para se preparar

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Estudando numa casa construída pela metade, na periferia de Salvador (BA), com apostilas usadas e com aulas gratuitas pela internet, Wesley de Jesus, 23, conseguiu ser aprovado em primeiro lugar em Medicina na USP de Ribeirão Preto, uma das melhores do país, pelo sistema de notas do Enem.

A informação foi publicada pela Folha de S.Paulo, que detalhou a trajetória do estudante aprovado pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada). Segundo Wesley, após cinco anos de preparação por conta própria, sua pontuação permitiria ingresso em qualquer universidade pública participante do sistema.

Desde a infância, o jovem afirma ter clareza sobre a escolha profissional. “Desde pequeno quero ser médico. Sempre usei hospitais públicos porque tenho asma. Agora quero me preparar para dar o retorno para a sociedade. Quero ser um exemplo para outros jovens de que hoje é possível acessar algo de excelência independentemente de origem, classe social e raça”, declarou.

Wesley vive em Cajazeiras, um dos maiores conjuntos habitacionais do Brasil, em uma casa ainda inacabada, com cômodos sem laje e sem pintura. Ele divide dois quartos com os pais e três irmãos. A mãe, Liliana Maria de Jesus, de 54 anos, está desempregada e atua como trabalhadora doméstica. O pai, Djalma Souza Batista, de 51, trabalha como pedreiro. Nenhum dos dois cursou o ensino superior.

Toda a formação escolar de Wesley ocorreu na rede pública. Ele relata que utilizou apostilas usadas, doações e conteúdos disponíveis online para se preparar. “Minha vida estudantil foi toda em escola pública. Estudei com apostilas usadas que me doavam, materiais que eu encontrava na internet e aulas online pelo Youtube. Tem muita coisa disponível atualmente”, afirmou.

Com a aprovação, o jovem se prepara para mudar-se para São Paulo, experiência ainda pouco conhecida por ele. “Não conheço praticamente nada. Tenho um sentimento agridoce. Feliz por estar indo para uma nova realidade em uma universidade muito importante, mas também em choque pelo que me espera. O custo de vida é muito mais caro do que aqui”, disse. Para enfrentar os primeiros meses, Wesley criou uma vaquinha nas redes sociais para arrecadar recursos. A USP oferece programas de assistência estudantil voltados a alunos de baixa renda, incluindo moradia e alimentação.

Ao refletir sobre o percurso até a aprovação, Wesley reconhece as dificuldades enfrentadas, mas ressalta a postura adotada diante delas. “Com toda certeza, eu tive muito mais barreiras que outros alunos para conseguir essa aprovação, mas nunca entendi a minha realidade econômica como algo determinante para eu nunca mudar de vida. Quero ser um médico com valores humanos, que gosta de seus pacientes e defende o sistema público.”

A família também atribui a conquista à fé religiosa. “Somos cristãos e a base de tudo sempre será Jesus, o autor da nossa salvação. Foi Deus que mais nos amparou em tudo, e tenho certeza que vai continuar nos ajudando nessa empreitada”, afirmou Wesley.